A VALE

 


       Em 1973 eu me dedicava a duas atividades principais: Como professor de alemão trabalhava no Instituto Cultural Brasil-Alemanha e dava também aulas avulsas, particulares. Como estudante frequentava o curso de administração na Fundação Getúlio Vargas, Rio.

       Como professor fui contratado para dar aulas particulares a um diretor da Cia. Vale do Rio Doce. Dirigi-me à Empresa, apresentei-me na portaria e indaguei sobre o futuro aluno, Dr. Antônio Pereira Neto.

       O porteiro se espantou e perguntou

--Você sabe quem é o Dr. Pereira Neto?

--Não, não conheço esta pessoa.

--Este é o homem mais poderoso da Vale. É o Diretor de Patrimônio. Todo o patrimônio da Vale passa por ele.

       Fiquei animado. Subi ao 4º andar, e no Gabinete do Diretor dei a primeira aula. E seguiram-se muitas outras. Impressionava-me a facilidade com que o Doutor assimilava as complicadas regras da língua alemã. Vi que ele bem merecia ser um poderoso chefe.

       Como estudante de administração eu precisava fazer um estágio numa grande empresa para concluir o curso. Através do Dr. Pereira Neto consegui uma vaga de estagiário no Departamento Comercial. Dirigi-me ao mesmo porteiro e indaguei da localização daquele departamento.

       O  porteiro espantou-se pela segunda vez. E perguntou:

       --Mas você não é o professor do Dr. Pereira Neto?

       --Sim, sou. Mas agora vou ser estagiário no Departamento Comercial.

       -- O que? Departamento Comercial? Fica no último andar, o 10º. É a nata da Vale.

       Fiquei  mais animado.  Subi ao 10º andar e comecei a estagiar.

       Minha função era registrar, diariamente, os dados de exportação de minério de ferro. Todos os dias eu recebia relatórios do Porto de Tubarão com a carga de minério de cada navio que partia para os diferentes destinos. Eu fixava os respectivos dados na parede com peças de madeira. Havia um quadrinho   para cada país importador.

       Os números eram impressionantes. Frequentemente o Diretor Comercial, o Gama, entrava na sala e me perguntava:

--Como vão as nossas exportações?

--De vento em popa Sr. Diretor.

Eu, particularmente, discordava daquilo. Cheguei até a marcar uma hora com o Diretor para falar da minha  indignação de ver o Brasil exportar tanto minério e importar os manufaturados, com valor agregado pelos outros. Argumentei seriamente. Tudo que não valeu de nada. A Vale continuou exportando minério.

       Eu era o responsável pela exportação para todos os países, menos por um, o Japão.

       Em 1973 o Japão era o maior freguês da Vale, e para isso havia um funcionário, de nível superior, um economista, o Flávio, sentado na mesa ao lado. exclusivo para o Japão. Ainda não existia a China no radar.

       Diariamente eu cumpria minha rotina de estagiário e dali seguia para o Instituto Cultural Brasil-Alemanha para exercer minha outra atividade de professor, até as 21 horas. Dali eu seguia para a casa do Dr. Rangel, Diretor da IBM, e dava aulas particulares para ele e sua filha Noemi, até as 22:30 h.

       Como se não bastasse, ainda inaugurei um curso autônomo de alemão em Ipanema, em agosto de 73. Em setembro comprei um fusca e em outubro comprei um sítio, maravilhoso, na região serrana de Nova Friburgo, dando início a uma nova fase.

       Assim minha série continuou.

       Voltem na próxima semana.

       



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