O CURSO DE ALEMÃO
Em 1973, quando eu era professor assalariado de alemão no Instituto Cultural Brasil-Alemanha, uma filial do Goethe-Institut, de Munique, o ICBA recebeu uma instrução da sede alemã para incentivar os professores a a abrirem cursos independentes em outros bairros da cidade do Rio de Janeiro. Era uma tentativa de descentralizar o ensino de alemão, até então concentrado no centro. (Desculpem-me o pleonasmo).
Eu fui o único que abracei a idéia e parti para a ação.
Meus colegas logo se aproximaram com seus conselhos. Para eles era uma ousadia, eu me desligar do ICBA, onde tínhamos a segurança do governo alemão, e aventurar-me como autônomo.
Não liguei para as advertências. Eu queria ser independente e emancipar-me da bendita CLT, que naquele ano completava 30 anos de vigência, visto que fora implantada no Brasil pela Ditadura Vargas, em 1943, inspirada na "Carta del Lavoro", elaborada pela ditadura fascista de Mussolini.
Curiosamente, decorridos 83 anos, a Consolidação das Leis Trabalhistas vigora até hoje e é a jóia da corôa do esquerdismo brasileiro, o maior inimigo do nazifascismo, de extrema direita.
Estando eu seriamente descapitalizado, mesmo assim fui à luta e reservei alguns dias para percorrer toda a Av. N. S. de Copacabana, de ponta a ponta, a pé, parando em cada prédio, em busca de uma sala para alugar.
As condições eram proibitivas. Achei várias salas disponíveis. Teria que assinar um contrato, apresentar um avalista idôneo, mobiliar a sala, comprar um telefone, caríssimo, quando ainda existiam as teles estaduais.
Na ponta do lápis era um investimento impossível. Eu sabia disso, mas eu insistia, na esperança de receber uma inspiração salvadora a qualquer momento.
Foi o que aconteceu. Após várias tentativas vâs, finalmente uma colega do ICBA me sugeriu propor uma parceria com o Colégio Melo e Souza, cuja dona era a esposa de um senhor de origem alemã. Ela certamente apoiaria a idéia.
No dia seguinte bati lá, para negociar as cláusulas do contrato, com o advogado, irmão da dona.
Por fim não chegamos a um acordo.
Eu não desisti. Finalmente achei o que eu queria: um Colégio de Freiras, localizado na Rainha Elizabete, entre Copacabana e Ipanema, uma zona nobilíssima.
Era agosto e eu tinha duas semanas para formalizar as matrículas e montar as turmas. Coloquei um anúncio na página de cursos do Jornal do Brasil.
Na segunda-feira de manhã sentei-me na secretaria à espera dos futuros alunos. Ali eu tinha tudo: secretaria, telefone, salas mobiliadas e o público de Copacabana, Ipanema , Leblon, Jardim Botânico. Só não existia ainda a Barra da Tijuca.
Durante uma semana só apareceu uma interessada, que não fechou a matrícula.
Não desesperei. Na sexta-feira à tarde, peguei um taxi, corri até a sede do Jornal do Brasil, e no último momento torrei minhas economias e encomendei um anúncio grande, na 3º página do 2º Caderno, ao lado da coluna social do Zózimo, na edição de domingo. Era o centímetro quadrado mais caro do Jornal, obrigatoriamente lido pela elite socialite.
Na segunda-feira acomodei-me na secretaria, junto ao telefone, e em cinco dias enchi três turmas,
Para atender a todos fui obrigado a superlotar as salas, e ultrapassar os limites recomendados. E pagava só 300 Cruzeiros por mês, por sala. Melhores condições, impossível.
O sucesso foi tal que, em setembro comprei meu primeiro carro, um fusca ano 67. Em outubro comprei um sítio, nas cercanias de Nova Friburgo, a 1100 m de altitude e 27,2 ha de extensão.
Continua amanhã
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