A PADROEIRA

 


       Discernimento é a capacidade de separar o joio do trigo, o falso do verdadeiro.

       Até o ano 0, ou melhor até o século I de nossa era, antes da Virada dos Tempos, historicamennte, não havia distinção clara entre política e religião, entre o poder temporal e o poder espiritual. As duas esferas se confundiam.

     Nas várias culturas pré-cristâs os monarcas se apresentavam a seus súditos como um sacerdote e até como um deus ou um semi-deus, exercendo a dupla função de administrar o país e ministrar a religião. O governante governava por direito divino. Não se questionava o exercício dessa dupla função por uma mesma pessoa.

       A grande mudança ocorreu no século I com o advento do Cristianismo. Aí essa distinção foi feita com toda clareza. 

       Em Mateus 22:15-22, Jesus esclarece a questão dos dois poderes, autônomos, dizendo:"Dai a César o que é de César, a Deus o que é de Deus."

      Nos três séculos seguintes foram os cristãos duramente perseguidos pelo Império Romano, adepto do politeísmo mitológico pagão. Os vários deuses da mitologia constituíam a base religiosa de governantes e governados, sem nenhum questionamento.

       Sendo porém o Cristianismo uma religião monoteísta e ciente da separação dos poderes, foram seus adeptos severamente perseguidos nos três primeiros séculos.

       Até que no ano 312, o Imperador Constantino, em conflito com seu adversário Maxêncio, teria tido um sonho onde lhe aparece a imagem da cruz e a inscrição "In hoc signo vinces" (Com esse sinal vencerás). Constantino partiu para a batalha contra Maxêncio, levando à frente de suas tropas uma  bandeira com a imagem da cruz. Retornando vitorioso, Constantino converteu-se ao Cristianismo, decretando a prática da tolerância entre as religiões, porém mantendo o título de "Pontifex Maximus."

       Só mais tarde, em 380, é que Teodósio I decreta a obrigatoriedade do Cristianismo como religião oficial do Império Romano. Nasce aí a Igreja Católica Apostólica Romana, estruturada nos moldes do Império. Política e religião aparecem amalgamadas como um todo.

       Essa fusão de Estado e Religião permanece por vários séculos.´até que, ao final da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) pensadores  como John Locke e Samuel  Pufendorf propõem que o Estado não pode impor uma fé sem gerar guerra civil. A Paz de Vestfália (1648) cria o princípio "cuius regio, eius religio." Cada príncipe escolhe a religião de seu territ (1791)ório. Foi o primeiro passo no sentido de uma futura laicidade.

       O conceito moderno de Estado laico surge com a Independência Americana (1776) e a Bill of Rights (1791), com a Revolução Francesa (1789) e consolida-se com a Lei de 1905 que estabelece a "laicité", a separação total.

       No século XX a idéia se espalha com a modernização.

       No Brasil o Estado laico nasce com a Proclamação da República e o Decreto 119-A de 1890, separando a Igreja Católica do Estado, após 400 anos de padroado.

       Embora o laicismo estatal tenha sido decretado há 136 anos, ainda hoje o país luta para superar a tendência teocrática de certos governos. Essa mistura de política e religião é visível no Congresso Nacional, onde há partidos denominados "cristãos", e a bancada evangélica  fortemente representada. Não só no Legislativo, mas também no Executivo e até no Judiciário encontram-se juízes terrivelmente  evangélicos, em flagrante contradição, concedendo a César o que não é de César.

       Em meio a toda essa confusão os padroeiros continuarão a ser venerados, nos Santuários, nas Cortes, nos Parlamentos e nos Palanques.

        

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