A META

 


        É o ponto de chegada, o objetivo final, a realização total. Chegar à reta final, e por fim atingir a meta. É assim no esporte, na profissão, na economia. Aí termina a corrida, de obstáculos, de realizações, de poder.

       A supervalorização da chegada acaba por desmerecer o percurso. O que é mais valioso?

       Em uma caminhada o importante é o caminho. Em uma viagem, importante é a via, percorrida. Chegar é só o ponto final, após longa travessia.

       Em português eu não sei a origem do verbo chegar, nem de llegar em espanhol. Em outras línguas é mais fácil rastrear a palavra até seu surgimento.

       A palavra latina "ripa" significa "margem". "Ripa" evoluiu para "riba", por sonorização da consoante bilabial surda "p", ou melhor do fonema "pe". Daí deriva-se o verbo "arribar". As aves de arribação são as que chegam, vindas de longe.

       A evolução não pára aí. O fonema "be" sofre degeneração e vira "ve", consoante  fricativa sonora, como em "faba", que virou "fava".

       A passagem de "be" para "ve" é comum nas várias línguas do grupo indo-europeu, que inclui as  neolatinas e as anglo-germânicas, todas pertencentes a uma família linguística. Assim como o "pe", surdo, evolui para "be", sonoro, pode também o "pe" evoluir para "fe", fricativo surdo. É a degeneração mantendo-se surda, não sonorizada. É porisso que o cachimbo inglês "pipe" passa a "Pfeife" em alemão. Da mesma forma "help" vira "helfen". O holandês conserva o p original em "helpen".

       O "fe" de "life" vira "ve" em "live", ainda em inglês, mas volta a ser bilabial sonoro no alemão "leben". Quem chegou primeiro? O fricativo ou o bilabial? Eis a questão.

       O fato é que ripa gerou riba, que gerou arriba, que gerou arriva, que gerou  arrive (ingl), que gerou arriver (fr), e por fim river, o rio inglês, com duas margens, como todos os outros, duas ripas, a esquerda e a direita. Eis aí toda a árvore genealógica da palavra.

       Só Guimarães Rosa, em sua genialidade, concebeu o rio com três margens. "A Terceira Margem do Rio", onde o solitário remador, o pai, homem cumpridor, honesto, permanecia remando, anos a fio, sem se dar conta do se-ir do viver, sem pojar em margem alguma, nem na terceira, que sequer existia.

       O pai, que não era nem mais estúrdio nem mais triste que os outros, jamais arribou em lugar nenhum, nem seu filho, que pretendia tomar o seu lugar na canoa, não venceu. Correu, fugiu, tirou-se dali,num procedimento desatinado.

       Quantos de nós vivemos o mesmo drama, navegando por aí, à deriva, sem meta, numa canoinha de nada, sem arrivar em lugar nenhum, nessa água de longas beiras. 

       Nese rio, pondo perpétuo

       

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