O PREFIXO UR
Existe um prefixo na língua alemã, ur, usado para designar o primeiro, o primevo, original, inicial. Por exemplo Urmensch, o homem primitivo, Ursprung, a origem, Ursache, a causa. A palavra Beginn significa início. Se o escritor deseja ir mais longe no passado, ele acrescenta o prefixo ur e grafa Urbeginn, os primórdios. Ele aparece na frase lapidar no início do Evangelho de João "Im Urbeginn war das Wort." "No começo era o Verbo". O tradutor alemão do texto de João indica assim que o Verbo, a Palavra, estava no começo absoluto de todas as coisas. Quer dizer, o Verbo Criador deu origem a tudo o que existe. O leitor pode imaginar essa Palavra como sendo a Urwort, da qual tudo evolveu.
Interessante também é que o tradutor para o português escolheu o termo Verbo para designar a Palavra Inicial, a Palavra Criadora.
De fato o verbo é a categoria gramatical que indica, sobretudo, ação, por exemplo escrever, andar, trabalhar. Uma ordem é pronunciada e segue-se o ato, o cumprimento.
Por exemplo, dos mundos superiores ressoa a palavra "Fiat lux", "Faça-se a luz". E a luz foi feita. O que não existia, começou a existir. É significativo que o Pe. Matos Soares, em sua tradução, usa o verbo existir. (V. Edições Paulinas,1960). Ali consta "Exista a luz. E a luz existiu."
A primeira existência emerge do nada, das trevas abismais. Esse primeiro impulso está contido na partícula "ur"na língua alemã, o idioma adequado para expressar conteúdos espirituais.
No quarto Evangelho João retoma o tema da Criação de todas as coisas e cita o Verbo no primeiro versículo. No 14º ele complementa; "O Verbo se fêz carne e habitou entre nós."
Ressalte-se aqui o vocábulo que aparece na versão grega "No começo era o Logos. E o Logos habitou entre nós."
Em seu dicionário "Deutsches Wörterbuch" Wahrig indica no alemão três traduções para a palavra "logos": Wort, Rede ,Vernunft. Quer dizer : palavra, discurso, razão.
Meditando sobre esses três termos, verificamos a "lógica" inerente a essa tríade.. Verdadeiramente um conjunto coerente de palavras forma o discurso, racional. Os três conceitos estão contidos em "logos"
A busca filosófica deve consistir em reconhecer o "logos" existente em todas as coisas, a "lógica" presente em todos os fenômenos.
Por exemplo quando contemplamos os processos evolutivos da Natureza, percebemos a racionalidade que se manifesta na sequência dos fatos. Se a concatenação dos fenômenos obedece a uma lógica, então pressupõe-se uma consciência superior como causa primeira, a Ursache, oculta por trás das manifestações visíveis, no "fainomenon" que aparece aos nossos olhos.
Ousamos aqui contestar o velho Darwin, que acreditava ser toda a evolução produto do mero acaso. Para o cientista vigorava o princípio da "casualidade", quer dizer, não havia nenhum sentido lógico, nenhuma coerência racional, nem na origem das espécies, nem nas transformações ocorridas ao longo do tempo. Tudo seria obra do acaso.
A esse princípio da "casualidade" contrapõe-se o conceito de "intencionalidade". Toda a Criação, desde sua origem (Ursprung) obedece a uma intenção superior, com uma meta bem definida lá na frente: o Homem, dotado de um eu individual, livre e responsável.
O Urmensch traz em si a centelha de sua realização.
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