O SEQUESTRO
Corria o ano de 1972. Era o tempo da ditadura militar. Eu morava em Niterói, e um vizinho meu, funcionário da Polícia, me denunciou como subversivo. Era uma denúncia vazia, pois eu nunca subverti a ordem pública, nem participava de passeatas. Fiquei tranquilo.
Até que, por sorte, um amigo meu do Exército me procurou e me aconselhou; -- Fuja do país imediatamente! Tem uma denuncia pesada contra você lá na Polícia.
--Como assim? Eu não fiz nada.
--Fuja já!
Vendi umas ações da Vale do Rio Doce, comprei uma passagem de navio, desci em Lisboa, peguei um trem, parei uma semana em Paris, e segui para Louvain, na Bélgica, onde um amigo me esperava. De lá estiquei para Amsterdam, onde fiquei hospedado num mosteiro.
Um dos padres tinha uma moto e frequentemente me levava para eu conhecer a cidade. Assim visitei vários pontos turísticos, inclusive um acampamento de brasileiros refugiados.
Eu próprio era refugiado, fiquei interessado e lá chegando, logo um deles me reconheceu e se aproximou.
-Você fugiu na hora certa. Você ia ser preso a qualquer momento, como sequestrador de avião.
Foi aí que eu fiquei sabendo o teor da minha denúncia.
É que na época estava na moda. Subversivos sequestravam embaixadores e aviões, e em troca, exigiam a libertação de companheiros.
Deixei passar um tempo, na Bélgica. Seis meses depois voltei para o Brasil e tratei logo de me mudar de Niterói, para outra cidade, a salvo de funcionário de Polícia.
Imaginem só, logo eu, que nunca sequestrei nada.
Aliás, para falar a verdade, não é bem assim. Como bom biodinâmico, tem uma coisa que eu ainda gosto de sequestrar, até hoje, de vez em quando.
-- O que?
-- O carbono.
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