A BANCA

 


       Na Idade Média  a Igreja proibia a prática da agiotagem, o empréstimo a juros. Emprestar dinheiro a juros era pecado de usura. O usurário corria perigo de ser excomungado. 

       Na prática isso significava que qualquer pessoa, em situação de premência financeira, no desespero, discretamente recorria a quem possuia meios financeiros para emprestar à pessoa necessitada. Quem tinha um excedente monetário socorria quem tinha uma carência. Assim funcionou durante séculos.

       O carente tomador de empréstimos, uma vez recuperado, devolvia o montante devido acrescido de "juros". O tomador jurava reembolsar o emprestador, com juros.

       A religião oficial proibia cometer o pecado, porém o  beneficiário consentia e alimentava o esquema. Uma religião proibia, a outra permitia socorrer os necessitados.

       O emprestador cobrava um ágio pelo serviço prestado.

       O sistema jamais funcionaria se o prestador de serviço recebesse a exata quantia transacionada.. O ágio era a garantia de continuidade do modelo para que sempre mais pessoas pudessem ser beneficiadas, fortalecidas e geradoras de bens e serviços.

       Um cidadão, possuidor de recursos financeiros excedentes, sentava-se num banco em praça pública e ali atendia os seus clientes. O banco de jardim evoluiu para o banco comercial de nossos dias.  

       Curiosamente, foi uma ordem religiosa diretamente subordinada ao Papa que desenvolveu um sistema , precursor do atual sistema bancário. Foi a Ordem dos Templários, na Idade Média, no auge da proibição da usura.

       Consta que os Templários nâo cobravam em espécie, cumprindo portanto a proibição papal. Recebiam doações em forma de terras, castelos, etc.  Os próprios nobres que ingressavam como monges doavam suas fortunas para a Ordem, sob voto de pobreza. Os monges abriam mão de qualquer propriedade pessoal, em benefício da Ordem, que assim podia financiar as Cruzadas e as peregrinações à Terra Santa. E também socorrer monarcas endividados.

       Foi o que aconteceu com o  Filipe IV, o Belo, o rei francês, endividado pela guerra contra a Inglaterra. Seu desespero chegou a tal ponto que foi obrigado a recorrer ao Papa, reivindicar a extinção da Ordem e confiscar seus bens. A Ordem dos Templários foi extinta, Filipe IV safou-se ileso e continua Belo, até hoje.

       Foi então fundada a Ordem de Cristo, herdeira do espólio templário. A nova Ordem pôde também apoiar a monarquia portuguesa e financiar o Infante Dom Henrique ao fundar a Escola de Sagres e promover as Grandes Navegações. O pequenino Portugal chegou a possuir um imenso Império que ia da América do Sul, passando pela África, Ásia até o Extremo Oriente. Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, Cavaleiros da Ordem, destacaram-se como grandes navegadores  

       Fica aí bem claro quão importante é a intermediação financeira, viabilizando grandes projetos para quem tem a capacidade empreendedora e não tem os recursos financeiros

       Esse modelo bancário passou por grandes transformações e existe até hoje, com sérias distorções.

       Por exemplo uma pessoa de 80 anos de idade não é mais socorrida pelo seu banco, embora tenha sido correntista fiel durante 50 anos. Não tem nem crédito consignado. Quando recorre ao cartão de crédito paga juros exorbitantes. 

       Antes dos 80 anos de idade a pessoa pode contrair empréstimos, sob juramento que devolverá a quantia ao banco, com juros.  Se não devolver, ficará inadimplente.

       O governo, o sócio de todas as pessoas, físicas e jurídicas, usa o mesmo artifício de seus associados: Contrai empréstimos para cobrir o rombo nas contas  públicas, todos os anos. Com uma diferença: seu nome não vai para o SERASA. O Governo deve, não nega, não paga o principal e continua deficitário, mesmo sendo contemplado com arrecadações recordes, a cada ano. Os bancos sustentam e compensam a incapacidade de o Governo gerenciar suas finanças. O que é obrigatório para os associados não o é para o sócio majoritário. Sempre existem bancos prontos para compensarem a incompetência de seu cliente maior e receberem juros crescentes, fixados pelo Banco Central. 

       A saúde financeira exige do cidadão a prática de gastar menos e ganhar mais. Qual é o ator financeiro que se permite gastar mais do  que ganha? O Governo.

       Não só aqui, entre nós, mas também em muitos outros lugares. A dívida pública é impagável. 

       Os juros são pagos, obrigatoriamente. O principal não. Os recebedores de juros exibem lucros bilionários, a cada ano. Mas não socorrem o velhinho de 80 anos, por causa da idade.

       Quem mandou a pessoa se cuidar e ultrapassar a expectativa de vida?

       Porém nem tudo está perdido.

       Já existem em vários países iniciativas de bancos comunitários, alternativos, sociais, inclusive entre nós.

       É o caso do Banco Tríodos, com presença também no Brasil. E na Alemanha o Gemeinschaftsbank Bochum. Na Holanda também.

       Estejamos atentos a esses empreendimentos. Poderá ser a luz no fim do túnel.

       

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