O SÍTIO BONSUCESSO

 

       O sucesso no curso de alemão na Rainha Elizabeth levou-me ao Colégio Notre Dame, dirigido por freiras alemãs, em plena Ipanema, a nata da sociedade. Várias  garotas  do bairro dirigiam-se ao Colégio para estudar alemão.

       Minha jornada era puxada. De manhã eu estudava  Administração na Fundação Getúlio Vargas. À tarde e à noite dava aulas no Colégio  e estagiava na  Vale do Rio Doce.No final da noite dava aulas particulares. Às 23 horas eu chegava em casa.

       Na FGV, durante um intervalo, enquanto  caminhava pelo corredor, ouvi uma conversa de três colegas acerca de um sítio a venda na região serrana de Nova Friburgo.  O dono morava na Ilha do Governador.

       Imediatamente seguimos para lá, no fusquinha ano 67. O dono,  Seu Rocha, descreveu o sítio e decidi comprar. As condições, embora excepcionais, estavam muito acima de minhas possibilidades. Daria uma entrada de 10 000 cruzeiros e 80 prestações mensais de 500 cruzeiros. Eu estava decidido e corri atrás, aliás na frente.

       Para dar a entrada tomei empréstimos em dois bancos.

       Para janeiro de 1974, coloquei dois anúncios grandes no Jornal do Brasil e no Globo, na edição de domingo, ao lado das respectivas colunas sociais do Zózimo e do Ibrahim Sued.

       Fechei três turmas de curso intensivo de férias, paguei os dois bancos e ainda sobraram Cr$ 2000.

       Confirmei a teoria: quando uma decisão é tomada o Universo conspira.

       Assumi assim mais um compromisso para os fins de semana: tocar o sítio.

       Mantive o mesmo empregado do antigo dono. Era um homem forte, competente e trabalhador. Foi um bom início.

       Só que, após um desentendimento, sem conhecê-lo bem, resolvi dispensá-lo. Foi aí que ele se declarou: Ele era o presidiário nº 175 da Frei Caneca e estava só liberado. 

       Eu quase gelei. Mas não transpareci. Paguei os seus direitos e ele seguiu em paz

       No dia seguinte fui a um vizinho tomar informações. Aí fiquei sabendo que o fulano era conhecido na   região como "valentão bom de briga." Não usava armas. Atacava as pessoas só com os dentes.

       Depois dele veio o Zezinho. Ele trabalhava independente, do jeito dele, usando adubos químicos e venenos. Aparecia uma praguinha,  ele já tinha a solução: "Vou usar um veneno forte e acabar com essa praga."

       Eu não concordava com aquilo. Criei coragem e comuniquei a ele: Zezinho, a partir de agora vai ser agricultura biológica. Aqui não entra mais adubo químico nem veneno,tá.

       Zezinho não gostou da idéia e foi se queixar para o meu pai, argumentando que aquela terra não dava nada nem com adubo, muito menos sem adubo.

       Meu pai transmitiu-me o recado. Peguei o fusquinha e fui lá. Paguei os direitos, dispensei o Zezinho e fiquei sozinho.

       Por coincidência no mesmo dia, apareceu o Izo, excelente empregado, do vizinho, com quem ele havia encrencado recentemente.

       Eu precisava de dois homens para implantar a biodinâmica. Izo trouxe então o cunhado, o Dito, também muito bom de serviço.

       Fiz um estágio na Estância Demétria com o Jorge Blaich, em Botucatu. Comprei um kit completo de preparados biodinâmicos e iniciamos o novo projeto no Sítio Bonsucesso, em Duas Barras, cidade natal do Martinho da Vila, que também comprara  um sítio no mesmo município. Eu até queria convidá-lo para uma roda de samba. Mas não deu.

       Em pouco tempo o sítio apareceu todo plantado, com viçosas hortaliças e legumes.

       Continua amanhã.


       

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