NA BÉLGICA
Os seis meses que permaneci na Bélgica foram intensos.
Eu tinha 300 dólares no bolso, o resto das minhas economias. Para sobreviver eu tinha que trabalhar, sendo turista estrangeiro.
Como eu era professor de alemão formado no Goethe-Institut de Munique, procurei vários cursos de línguas estrangeiras, exibindo meu diploma.
Em vão. Só aceitavam professores nativos. Como um brasileiro poderia ensinar alemão na Bélgica?
Para português não havia demanda. Portugal não era da UE nem do MCE, muito menos da OTAN.
Eu não podia mexer nos 300 dólares, minha última reserva.
Procurei o bandeijão universitário e fui contratado para lavar louça. Aproveitava as sobras e ganhava o almoço. Mas não podia levar comida para casa. Tinha que comer tudo lá, na cozinha. Eu me fartava.
Para completar meu orçamento afixei anúncios nas várias faculdades da Universidade de Louvain (Lovaina em português.)
Fui objetivo: "Cours privés et travaux de traduction. Allemand, anglais, français, portugais, espagnol et russe. Professeur João Carlos Avila."
Para não despertar qualquer suspeita, tive o cuidado de não especificar minha nacionalidade.
Apareceu o primeiro cliente, um belga procurando um professor de alemão para sua noiva.
Desconfiado, abriu um livro para eu ler algumas frases. Ele aprovou a pronúncia, mas não me contratou.
Aí apareceu um senhor querendo aulas de espanhol, gratuitas, na casa dele, em troca do jantar e conversas com a família, em francês. Aceitei as condições. Ainda tentei sugerir português. Mas não, ele queria espanhol. Foi ótima experiência.
Tinha também uma brasileira, Raquel, noiva de um belga. Ela estudava russo na Faculdade, mas não estava entendendo as regras gramaticais. Ela queria aulas só de gramática, de graça, em troca de uma hora de conversação em francês. No final eu ainda ganharia uma xícara de chá. Aceitei.
Uma outra brasileira, a Silvia, queria só conversação em inglês em troca de francês. Aceitei.
Meu almoço estava garantido na cozinha uiversitária. Enquanto eu lavava louça, conversava com os estudantes de diferentes orígens. Era o melhor dos mundos.
Estudantes de vários países afluíam para Louvain (Lovaina). A Universidade se orgulhava de ser uma das mais antigas, tendo acolhido em seus bancos um jovem nobre que viria a ser o Imperador Carlos V.
Nos encontros festivos conheci uma belga francofônica. Era a Marie Louise, ou Malou. Foi providencial.
Apareceu um estudante da República Dominicana com um trabalho de psicologia para eu traduzir do espanhol para o francês. Aceitei o encargo e dei o meu preço. Ele respondeu; "Carísimo."
Argumentei que era um trabalho especializado. Ele aceitou.
Procurei a Malou e com sua ajuda traduzi todo o trabalho, num francês perfeito. E dividi com ela a remuneração.
Quinze dias depois apareceu o mesmo dominicano com outro trabalho, elogiando: " Seu francês é excelente."
Secretamente procurei a Malou e traduzimos, rapidamente. Equilibramos nossas finanças.
Quinze dias depois apareceu um segundo dominicano, recomendado pelo primeiro. Aceitei.
Eu já estava tâo prático que a Malou mal tinha o que revisar. Mas eu dividia o lucro.
Um dia nós brigamos. Joguei na mesa as notas de franco belga, ela se assustou e tudo terminou bem.
numa casa de três andares, uma república, morava o meu amigo, Osmar, e a faxineira era uma baiana, que namorava um monge uruguaio na Holanda. Com ela fui conhecer Amsterdam.
A baiana resolveu mudar-se definitivamente para o Mosteiro de Amsterdam e ofereceu-me a sua vaga para fazer a faxina semanal na República de Louvain. Aceitei.
Ganharia 150 francos por semana. Um salarião.
Nessa república morava um estudante de medicina alemão, cujo amigo era um músico da Orquestra Sinfônica de Bamberg, que havia gravado discos com Dietrich Fischer Dieskau, o melhor barítono de todos os tempos, segundo ele próprio: "Der beste aller Zeiten." Fiquei orgulhoso.
Eu também conhecia a Orquestra de Bamberg, de um concerto no Teatro Municipal. Muita coincidência.
Um dia , uma quarta-feira, apareceu um jovem belga na República procurando o estudante alemão para tomar aulas particulares diárias, para prestar um concurso de grande importância. O estudante de medicina não aceitou, pois não se julgava qualificado, embora fosse sua língua materna. Mas recomendou o faxineiro, formado em Munique. E deu o preço, 80 francos por hora. Era o dobro do preço de mercado.
Na quinta-feira, dia de faxina, Konrad me comunicou. Um novo aluno, aulas diárias a 80 francos. E repetiu: "Já dei o preço. Você fica firme. Para começar hoje, depois do expediente."
"Pode deixar", respondi.
Às 17 horas o menino chegou. A aula transcorreu normalmente, e no final, na hora de receber o honorário, eu, meio constrangido, é..., falei: 80 francos. De imediato , ele retrucou.
-- Meu pai mandou pagar 100. Toma aqui."
Foi um sucesso. E eu ainda mandava o menino traduzir tudo para o holandês. Aprendi muito assim.
O jovem foi aprovado, e a família me convidou para a festa de comemoração. Queriam conhecer o professor. Só então, para surpresa geral, ficaram sabendo que eu era brasileiro. Fazer o que? O filho já estava aprovado.
Ganhei uma bolada, que deu para passar uma semana em Londres, e ainda sobrou libra.
No último mes, cancelei todas as minhas atividades, e dediquei-me, em tempo integral, a ajudar o Osmar na redação de sua tese de conclusão de curso, com todas as despesas pagas e mais o que eu ganharia na cozinha. E ainda prometeu viajar comigo para Moscou, cobrindo todas as despesas de viagem até Varsóvia. O que não se concretizou.
Eu queria continuar em Lovaina, e concluir meu curso de administração iniciado na Fundação Getúlio Vargas, mas não foi possível.
Decidi voltar para casa, com 300 dólares no bolso. Não pagava nem a passagem de navio partindo de Lisboa.
Aturdido, procurei a Embaixada Brasileira para solicitar uma repatriação. A funcionária foi sincera. Ela poderia me repatriar, mas eu nunca mais receberia um passaporte para viajar.
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