A ABIO
No meu tempo de produtor rural, na década de 80, no Sítio Bonsucesso, em Duas Barras, RJ, juntamos vários produtores e fundamos a ABIO, a Associação de Produtores Biológicos do Rio, da qual eu fui o primeiro vice-presidente e diretor técnico, responsável pelas certificações.
A Associação ganhou um espaço no centro da cidade de Friburgo para montarmos a nossa Feirinha da Saúde, em 1985. Foi a primeira feira livre orgânica, exclusiva para os associados. Foi um sucesso.
Eu tinha dois funcionários excelentes. Na sexta-feira, fazíamos a colheita, enchíamos a Kombi, e no sábado de madrugada, minha família e eu levávamos a carga para vender na feira.
A demanda era fantástica e a freguesia disputava os produtos.
Uma freguesa, muito exigente, era a primeira a chegar, ao nascer do Sol. Sua preferência era o tomate e a cenoura. Ela se admirava, porque a cenoura tinha um aroma especial. Para mim era difícil explicar a função do preparado de sílica, o 501.
Quando estava terminando a safra do tomate, a tal freguesa se atrasou alguns minutos, e uma outra, concorrente, chegou primeiro e arrematou todo o tomate. A outra chegou em seguida, ficou furiosa, e aprontou uma quizumba com a outra que chegara primeiro. A primeira,que antes sempre era a segunda, foi obrigada a dividir toda a compra com a segunda,que se julgou lesada por ser sempre a primeira. Tinha direitos adquiridos. Foi um barraco.
Nossa associação conseguiu também uma vaga para sexta-feira, na Hebraica, no Rio. Cada produtor levava sua carga em veículo próprio, na véspera, para chegar no Rio de madrugada, armar a barraca, e começar a venda ao nascer do Sol, com os fregueses fazendo fila no portão. Para nós, produtores, sexta e sábado era uma virada de 48 horas.
Nós queríamos comprar um caminhão para levar a carga de todos, mas faltava o dinheiro.
Até que um dia, na feira de sábado, eu sugeri aos companheiros fazermos uma visita ao Bispo, e solicitar uma ajuda da Caritas, da Igreja Católica Alemã, com sede em Aachen. Todos deram risada.
Secretamente, eu e o Karl Greulich, membro da diocese, fomos falar com o Bispo, redigimos uma solicitação, o Bispo assinou embaixo, e eu mesmo depositei a carta no Correio. Trinta dias depois chegou um envelope com um cheque de 20 mil marcos. Silenciosamente, no meio da feira de sábado, procurei no bolso e exibi o cheque para todos, os incrédulos.
O presidente Raul logo se adiantou e exigiu: --Me dá esse cheque aqui. Eu sei onde trocar E todos exultaram.
O caminhão foi comprado e um motorista contratado. E ainda sobrou grana.
Na mesma ocasião eu fui contratado para assessorar o Projeto Medanha, no Rio. Combinei com o motorista de viajar com ele no caminhâo, de carona. Saimos às 22 horas, à meia-noite ele parou num posto para descansar. Ele dormindo na cabine, eu na carroceria, no meio da carga, entre as caixas. Não consegui. Muito desconfortável. Desci,e acomodei-me debaixo do caminhão, sobre o asfalto. Muito cansado, adormeci. Dormimos por meia hora e seguimos viagem. Tudo normal.
No dia seguinte, no sítio, comentei com a família e pedi segredo. Minha mãe não podia saber que o filho dela dormia debaixo de um caminhão.´, no asfalto. Luciana, minha esposa, providenciou um colchonete para as próximas viagens. Um grande avanço.
Numa dessas viagens, como sempre, acomodei-me, confortavelmente, no mesmo lugar, no mesmo posto de gasolina. De repente, bateu uma tempestade. Felizmente eu estava protegido pela carroceria. Mas o aguaceiro corria por baixo e por cima do colchonete, e por cima de mim. Levantei-me correndo, encharcado, acordei o motorista e seguimos viagem até o Rio.
Ele seco, e eu, secando, com o calor do corpo, e com o calor do motor.
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