A JANELA

 


       É mais uma palavra plena de significados nas diversas línguas.

       Em primeiro lugar em português, janela deriva de januella, o diminutivo de janua, que significa "porta". A porta de entrada da casa é também a entrada do ano, o "januarius", que deu em inglês "january". Januário é também o que trabalha na porta ou na portaria. É o porteiro, o que cuida da entrada, enquanto "janitor" é o zelador, o que zela pelo prédio inteiro.

      No Brasil os dois conceitos se confundem, porta e janela, janua e januella. Linguisticamente a janela é uma porta menor. Daí a confusão, pois porta é para a gente entrar, janela é para entrar vento e luz, é para iluminar e refrescar. Em espanhol "ventana." No Brasil, quando alguém quer entrar para o serviço público sem concurso, "entra pela janela." 

       As outras línguas não misturam os conceitos. Em latim "fenestra", uma abertura na parede ou na muralha. O italiano segue o latim e diz "finestra". O francês idem, "fenêtre". E até o alemão, uma língua germânica, chama a janela de "Fenster", direto do latim. O português tem também uma derivada de fenestra. É a palavra "fresta", uma rachadura na parede por onde entra luz, vento,  e frio nas noites de inverno. 

       O inglês chama janela de "window", sendo "ow" uma antiga palavra equivalente a "eye", o olho. "Window" corresponde a "windeye", um olho na parede, aberto para entrar vento (wind). Pela lógica anglo-germânica o alemão deveria dizer "Windauge". Mas não, prefere Fenster, vinda de Roma. Se fosse de Veneza seria "veneziana", que não ilumina nem refresca. Pelo contrário, escurece e aquece.

       Na Rússia o raciocínio é como na Inglaterra, onde window é um olho aberto na parede para entrar vento. Na Rússia janela é "okno". Por coincidência "oko" é uma antiga palavra para olho, semelhante ao latim "oculus". O plural de oko é "otchi", que deu "otchki", os "óculos". Óculos são lentes de cristal que direcionam a luz de modo a corrigir os defeitos do "cristalino", a lente ocular. 

       Entre nós o funcionário da empresa, demitido,"vai pro olho da rua." Na Rússia é pior: o inimigo político é despejado pela janela. E assim em todo lugar: o inimigo é "defenestrado".

       No Brasil o cantor e compositor Chico Buarque também misturou as palavras e compôs uma bela canção, um sucesso nos idos de 1960, em homenagem a Januária, a moça da janela, olhando pro mar. Na época até eu cantarolava a canção:

       "Januária na janela, até o mar faz maré cheia,

         prá chegar mais perto dela..."  tra la la...

                 Ah que saudade!!!

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