O PROJETO MENDANHA
Eu seguia minha rotina como produtor rural no Sítio Bonsucesso, em Duas Barras, RJ, perto de Nova Friburgo..
Um belo dia recebi um telegrama de um amigo de Niterói: "Venha imediatamente projeto banco providência."
Embarquei no primeiro ônibus e, de Niterói, meu amigo me encaminhou para outro amigo, diretor da Fundação MUDES , Movimento Universitário para o Desenvolvimento Econômico e Social. O MUDES havia recebido a incumbência de elaborar um projeto agrícola para o Banco da Providência, um banco social vinculado à Arquidiocese do Rio de Janeiro, a qual havia recebido uma área doada por um empresário italiano que retornara para a Itália.
Esse projeto estava engavetado havia seis meses. Quando eu cheguei expliquei ao Diretor a essência da Biodinâmica. À tarde viria uma equipe do Banco para conversarmos. Repeti a mesma explicação. A adesão foi total. Fiquei um mês elaborando o projeto com o MUDES, em novas bases. O Banco me contratou, por um bom salário (300 ???), para trabalhar dois dias por semana, na escala 2x5.
Iniciamos os trabalhos, com 20 homens, todos selecionados por critérios sociais. Eram casados, chefes de família, desempregados, ficha limpa e moradores daquela área de alta periculosidade. Ali receberiam um bom salário, carteira assinada, almoço e lanche. Eu também.
A produção ia toda para abastecer a Colônia de Emaús, que abrigava 600 homens que eram recolhidos em algum lugar, assistidos, recuperados e ressocializados.
Até entâo a alimentaçao da Colônia vinha toda do CEASA. Agora passou a vir do Mendanha, num novo padrão de qualidade. Os resultados agronômicos eram excelentes. O Banco comprou uma área anexa, um trator, um caminhão, uma vaca, implantou um aviário, um minhocário, um apiário e uma fábrica de tijolo solo-cimento. Até o Arcebispo foi lá um dia visitar o Projeto. E uma vez enviamos uma caixa de manga carlotinha para o Papa.
Meu salário era 300 ???. No fim do mês veio um cheque de 500 ???, por ordem da D. Iris, a dieretora. Exultei.
Nos dias em que eu trabalhava no Projeto, eu me hospedava, sozinho, num antigo casarão de dois andares. Dentre as várias opções eu escolhi instalar-me no último quarto, no fim de um longo corredor, que tinha a vantagem de ser em dois ambientes, revestidos com Pinho de Riga.
O casarão era todo bem iluminado, mas eu tinha o cuidado de manter as luzes apagadas, para não despertar qualquer suspeita de que alguém estava lá dentro. Assim eu estava a salvo das milícias.
Nunca tive problema.
Até que um dia, aliás uma noite, por volta da meia-noite, eu acordei sobressaltado, ao som de fortes pancadas vindas lá de baixo, da porta principal. Era alguém querendo entrar. Levantei-me cuidadosamente, postei-me junto à porta, e aguardei os acontecimentos. Após alguns minutos, as pancadas cessaram e fêz-se silêncio. Pude então nitidamente escutar lentos passos subindo as escadas.
Procurei manter a calma. Eu não tinha nenhuma arma. Era zona rural, mas eu não tinha nem uma foice nem uma picareta para me defender.
Os passos começaram a provir do início do corredor, em minha direção. A escuridão era total. Quando estavam a poucos passos da minha porta, me veio a providencial inspiração: Levei as duas mãos à boca e produzi um som característico, imitando fielmente a voz de um fantasma, UUUUHH.
O indivíduo estancou na hora, fez meia-volta, disparou correndo escada abaixo e escapou pela porta da frente, sem sequer lembrar-se de fechá-la ao sair.
Foi a minha salvação. A notícia correu, e desde aquele dia o casarâo malassombrado nunca mais foi invadido por estranhos.
Minha rotina continuou a mesma. Eu dividia meu tempo entre Mendanha, Sítio Bonsucesso, ABIO, e depois da Feirinha da Saúde, aos sábados, arrumava as caixas e doava as sobras para o orfanato da cidade. Só então é que eu ia passear com a família, no parque, na casa de amigos e nas festas dos amiguinhos.
Ia tocando "sem pensar nem maginar."."
Até que um dia chegou um recado do meu primo Paulo Veriano, de Valença, minha cidade, da qual eu estava afastado uns vinte anos. Eu nem sabia o que acontecia por lá. Fiquei sabendo depois. Meu primo era dentista e professor assistente do Dr Alvaro, que acabara de ser eleito prefeito e queria levar propostas novas para Valença. Renovar e inovar. Governo da Renovação.
Junto com meu primo Dr. Alvaro organizou uma comitiva para visitar o Projeto Mendanha. Lá chegando rodaram por toda a área, bem impressionados. Dr. Alvaro parou num canteiro, puxou uma cenoura e indagou: --Esta cenoura não tem química?
--Não, é natural. Respondi.
Na mesa do almoço a conversa ia animada. Em dado momento o prefeito eleito cochicha alguma coisa com seu assessor, vira-se para mim e pergunta: --Quer ser meu secretário? Vamos levar a biodinâmica para Valença.?
Levei um susto e pedi trinta dias de prazo para pensar. E voltei para o quotidiano.
Duas semanas depois chega no Sítio uma comitiva de Valença, exigindo de mim uma resposta imediata.
Respondi imediatamente, aceitando o novo encargo.
No dia 2 de janeiro de 1993 tomei posse do cargo de Secretário Municipal de Agricultura de Valença, juntamente com o Prefeito e toda sua equipe.
Voltem na próxima semana.
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